O Angelus de Millet

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Um casal de camponeses, frontes abaixadas, de pé sobre uma vasta plantação que se estendia até vermos, ao fundo, uma igrejinha. A seu lado, as ferramentas repousando, enquanto a luz se esvanecia. Do lado de cá, onde estamos, não ouvimos coisa alguma; mas do lado de lá, nas terras cultivadas, ouvia-se o dobrar dos sinos ecoando da igrejinha: é o Angelus que (se) anuncia.

O Angelus, de Jean-François Millet, é uma das pinturas mais reproduzidas e conhecidas do mundo e encontra-se exposta no Museu D’Orsay. Mesmo em meio à delicadeza das pinturas de Renoir, ou ao realismo seco do ventre nu de Coubert, o Angelus se destaca. E por quê?

A simplicidade da cena é tocante.  Num momento em que Paris vivenciava um período de aguda urbanização, com a técnica a parir máquinas e mais máquinas, os parisienses eram tomados por um saudosismo. Buscavam fugir do barulho das máquinas, da balbúrdia citadina, refugiavam-se no campo. A escola de Barbizon, célebre por retratar cenas bucólicas, despontava no ambiente artístico francês.

Emana uma paz da pintura de Millet. Retratar cenas quotidianas não constituía novidade, na pintura. Os holandeses foram os pioneiros, três séculos antes, em retratar o dia-a-dia da Holanda mercantil, os primeiros a afastarem-se dos motivos religiosos ou dos temas baseados na mitologia clássica. Elogio do quotidiano, no dizer de Tzvetan Todorov. O que caracterizava a pintura de Millet, no entanto, era esse encanto com a singeleza dos dias nos campos. Curiosamente, seria outro holandês, bem mais célebre, que retomaria o tema: Van Gogh baseou-se em Millet para pintar seus quadros retratando a vida camponesa.

Dalí, impressionado com a beleza do quadro, cismou que os camponeses choravam a morte de seu filho, enterrado naquelas terras. Seria a morte o que se pranteia nesse quadro?

Estava errado, Dalí. Não é a morte que se celebra nesse quadro. É a vida. É vida que nele se celebra.

Por maior que seja o avanço da técnica, por mais que seja o homem a arar a terra, a plantar as sementes, quiçá a modificá-las, o que faz com que elas germinem? Onde a técnica? Onde as máquinas? Onde a ciência, neste momento? Quedam-se silentes, ansiosas por escutar o dobrar dos sinos.

É o Mistério do germinar dos grãos o tema desse quadro. Os camponeses, humildes, voltam o rosto para o húmus da terra e rezam para que esse Mistério aconteça.

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O Angelus, de Jean-François Millet, é um óleo sobre tela, datado de 1859 e exposto em Paris, no Museu D’Orsay. A imagem representada neste post foi extraída do site http://www.wikipaintings.org/en/jean-francois-millet/the-angelus-1859 e se encontra em domínio público.

Vi esse quadro quando de minha visita ao Museu D’Orsay, em 2010. Desde então, sentia a vontade de escrever minhas impressões sobre ele, mas nada será o bastante.

Sugiro que cliquem nos links. O material é bem interessante.

 

 

 

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Munch e outras estórias

O Grito, de Edvard Munch, sempre me impressionou bastante. O estado de alma captado na pintura era tão denso, agudo e preciso, que dificilmente alguma outra pintura poderia igualá-lo.

Fui a Oslo para ver O Grito. Iria a Helsinque, participar de um congresso, e essa era minha chance de conhecer a pintura que eu mais admiro. Hospedei-me pertinho do Munch Museum (e longe de todo o resto da cidade) só para ver a obra mais facilmente. Em vão. O Munch Museum estava fechado para reforma e teria de contentar-me apenas com a versão de O Grito exposta no Museu Nacional.

Quando, sem senso de direção algum, perdida na própria rua do Museu Nacional, finalmente encontrei a entrada, vi não apenas um Munch, O Munch, mas alguns outros, que igualmente me impressionaram.

Ao entrar na sala, havia quadros de Munch nas paredes à esquerda e à direita do visitante, com O Grito tomando a parede central. Era a principal sala do Museu. Aproximei-me para ver os quadros.

De um lado, na parede à minha esquerda, um quadro contendo uma moça de saia, desnuda cintura acima, relaxadamente deitada numa cama. No extremo inferior esquerdo do quadro, uma mesinha de apoio continha uma garrafa de vinho e dois copos, ambos com sinal de recente uso. Dominando a cena, e todo o resto do quadro, essa moça desnuda, relaxadamente deitada.

Munch, que todos conhecem dos quadros sombrios, pintando um momento de descontração? Parecia haver algo de errado com esse cenário. Será esse o Munch a que estamos acostumados a ver? Uma moça desnuda, descansando em sua cama, seria um escape do ambiente sombrio a que Munch estava acostumado?

Voltei a olhar para o quadro (guardando o momento solene de olhar O Grito com calma). Uma moça desnuda, copos de vinho usados recentemente, um quarto sem portas.

Era, sem dúvida, um momento íntimo esse que Munch retratava. Estando a moça desnuda, demi-nude, como querem os franceses, natural fechar a porta. Natural nem mesmo ter porta. Era um momento de intimidade, no qual a moça desnuda repousava calmamente. Abandona-se a seus devaneios, esticada sobre sua cama, tendo aos pés os copos de bebida anteriormente compartilhados.

O quarto estaria fechado? Seria a ausência de porta apenas uma indicação de privacidade, tão-só? A moça desnuda, trancada em seu quarto, esconde segredos. Quem estava com ela se foi, saiu, fechou a porta. Intimidade preservada, identidade preservada. A moça desnuda não estava apenas abandonando-se a seus devaneios, fora também abandonada.

Deitada, demi-nude, braço pendendo para fora da cama, quarto trancado, a moça tinha um momento para si. Um momento a que se seguiriam vários outros. A intimidade iria embora, dentro em breve, e transformar-se-ia em solidão.

Esticada sobre sua cama, o relaxamento viria a transformar-se em tensão. A descontração de um momento guardava uma imensa inquietude.

Os copos estavam usados, a garrafa de vinho vazia, o quarto fechado e, latente, a frustração. Seria um quarto ou uma cela? A moça desnuda, deitada languidamente em sua cama, era toda potência: sinal da angústia futura. “Minha alma, feita berço, acalenta um grito.” Esse verso invadiu-me os pensamentos, alguns anos atrás, à espera de que eu pudesse descrevê-lo nalgum poema mal-feito. Não era preciso o esforço. Munch escrevera já o poema. A moça desnuda acalentava o grito.

E eis que olho O Grito.

O quadro, todos conhecem. Uma figura disforme, em tons escuros, terrosos, numa ponte em que se vêem, ao fundo, pessoas a admirar a paisagem, põe as mãos à altura dos ouvidos, e grita, grita desesperadamente. Muita, muita dor. O quadro é todo possuído pela angústia. É tomado pelo desespero, por um tormento tamanho, que apenas outro gigante, Graciliano, saberia retratar com palavras.

Gritava-se alto, muito alto, ninguém ouvia. Nenhuma das figuras do quadro voltara os olhares para o aflito. Continuavam lá, indiferentes, apreciando a paisagem.

Impressiona-me a precisão: Munch era um matemático. Somente um matemático usaria as proporções, as deformidades, a gradação das cores, a perspectiva perfeita das figuras distantes e de O grito, tão próximo, para retratar esse momento supremo de angústia.

Seria a moça desnuda quem agora gritava tão aflitamente?

O Grito incomoda.

Inspira compaixão. O olhar que o visitante derrama sobre o quadro é um olhar semelhante ao de Jesus, no Evangelho. A viúva chorava desesperadamente o filho morto. Jesus, tomado por compaixão, aproximou-se e disse: Mulher, não chores!

Nosso olhar, tal como o de Cristo, impele-nos a dizer: Mulher, não grites!

Os sinos não dobram apenas pelo Grito. Dobram por todos nós.

Munch atingira a perfeição. Era santo e era artista, tal como Tomás era santo e O filósofo.

Volto-me para a outra parede. Vejo um cavalo.

Um cavalo?

Um cavalo. Um retrato de um garboso e portentoso cavalo, com um verde campo pronto para que sobre ele se corresse. Mas o cavalo não corria, não. Estava parado, bem esticado, com o porte majestoso, a posar para o retrato. Natureza forte, viva, e não morta. Vigor pleno.

Uma moça desnuda, um Grito de desespero e um cavalo. Uma estranha combinação. Teriam relação esses quadros?

O cavalo era um convite: “correr livre pelos campos, dar vazão a uma alma inquietante”.

Eis outro verso que me persegue, há mais tempo ainda que a alma, tornada berço.

O cavalo fazia à moça um convite: corramos livres pelos campos, para dar vazão a sua alma inquietante. Corramos, corramos. Não para fugir dos sofrimentos, que esses vão para onde você for, mas para desgastá-los. Cansemos os sofrimentos de tanto correr, para que eles caiam estatelados no chão, extenuados, mortos de cansaço.

Aquele cavalo, nesse meu cenário, era um convite. Uma opção, uma escolha.

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Fico devendo o cavalo.

O Grito possui duas versões em óleo sobre tela, têmpera e pastel sobre cartão. A representada aqui neste post é a versão exibida no Museu Nacional da Noruega, em Oslo. Data de 1893.

O quadro da moça desnuda é chamado de O dia seguinte (The day after, em inglês). Exibido também no Museu Nacional da Noruega, em Oslo, é um óleo sobre tela feito em 1894-95.

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