O Angelus de Millet

the-angelus-1859

Um casal de camponeses, frontes abaixadas, de pé sobre uma vasta plantação que se estendia até vermos, ao fundo, uma igrejinha. A seu lado, as ferramentas repousando, enquanto a luz se esvanecia. Do lado de cá, onde estamos, não ouvimos coisa alguma; mas do lado de lá, nas terras cultivadas, ouvia-se o dobrar dos sinos ecoando da igrejinha: é o Angelus que (se) anuncia.

O Angelus, de Jean-François Millet, é uma das pinturas mais reproduzidas e conhecidas do mundo e encontra-se exposta no Museu D’Orsay. Mesmo em meio à delicadeza das pinturas de Renoir, ou ao realismo seco do ventre nu de Coubert, o Angelus se destaca. E por quê?

A simplicidade da cena é tocante.  Num momento em que Paris vivenciava um período de aguda urbanização, com a técnica a parir máquinas e mais máquinas, os parisienses eram tomados por um saudosismo. Buscavam fugir do barulho das máquinas, da balbúrdia citadina, refugiavam-se no campo. A escola de Barbizon, célebre por retratar cenas bucólicas, despontava no ambiente artístico francês.

Emana uma paz da pintura de Millet. Retratar cenas quotidianas não constituía novidade, na pintura. Os holandeses foram os pioneiros, três séculos antes, em retratar o dia-a-dia da Holanda mercantil, os primeiros a afastarem-se dos motivos religiosos ou dos temas baseados na mitologia clássica. Elogio do quotidiano, no dizer de Tzvetan Todorov. O que caracterizava a pintura de Millet, no entanto, era esse encanto com a singeleza dos dias nos campos. Curiosamente, seria outro holandês, bem mais célebre, que retomaria o tema: Van Gogh baseou-se em Millet para pintar seus quadros retratando a vida camponesa.

Dalí, impressionado com a beleza do quadro, cismou que os camponeses choravam a morte de seu filho, enterrado naquelas terras. Seria a morte o que se pranteia nesse quadro?

Estava errado, Dalí. Não é a morte que se celebra nesse quadro. É a vida. É vida que nele se celebra.

Por maior que seja o avanço da técnica, por mais que seja o homem a arar a terra, a plantar as sementes, quiçá a modificá-las, o que faz com que elas germinem? Onde a técnica? Onde as máquinas? Onde a ciência, neste momento? Quedam-se silentes, ansiosas por escutar o dobrar dos sinos.

É o Mistério do germinar dos grãos o tema desse quadro. Os camponeses, humildes, voltam o rosto para o húmus da terra e rezam para que esse Mistério aconteça.

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

O Angelus, de Jean-François Millet, é um óleo sobre tela, datado de 1859 e exposto em Paris, no Museu D’Orsay. A imagem representada neste post foi extraída do site http://www.wikipaintings.org/en/jean-francois-millet/the-angelus-1859 e se encontra em domínio público.

Vi esse quadro quando de minha visita ao Museu D’Orsay, em 2010. Desde então, sentia a vontade de escrever minhas impressões sobre ele, mas nada será o bastante.

Sugiro que cliquem nos links. O material é bem interessante.

 

 

 

Anúncios

Sobre anartam

Brasileira, com graduação em Direito e Administração, atualmente venho estudando as relações entre Direito e Neurociências, Teoria Geral e Filosofia do Direito, embora minha formação tradicional tenha sido em Direito Tributario. Brazilian, graduated both in Law and Business, I'm focusing actually in Law and Neurosciences, Legal Theory and Philosophy of Law, although my primary background has been in Tax Law.
Esse post foi publicado em Não categorizado. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para O Angelus de Millet

  1. Ana,

    Sempre que vejo esse quadro, penso que os camponeses estão chorando a morte de um filho. Ao ler este seu ótimo texto, descubro que estou bem acompanhado, por ninguém menos que Dalí. 🙂

    Parabéns pelo texto.

    PC

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s